Eu vi. Ela não me viu. Não via ninguém, acho. Tão voltada para a sua própria dor que estava, também, meio cega. Via pra dentro: Charco, arame farpado, grades. Ninguém parou. Eu também, não. Não era um espetáculo imperdível, não era uma dor reluzente de néon, não estava enquadrada ou decupada. Era uma dor sujinha como lençol usado um por mês, sem lavar, pobrinha como buraco na sola do sapato. Furo na meia, denta cariado. Dor sem glamour, de gente habitando aquela camada casva-grossa de vida. Sem o recurso dessas benditas levezas de cada dia.
(Caio Fernando Abreu)
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